NINETS: Apresentação

Apresentação

O Núcleo de Investigações e Intervenções em Tecnologias Sociais resulta da experiência acumulada por suas/seus integrantes no âmbito da Universidade Estadual da Paraíba desenvolvendo iniciativas que envolvem, de maneira articulada, ações de investigação, produção do conhecimento e intervenções sociais com grupos sociais afetados por dinâmicas articuladas de discriminações associadas à raça, gênero, sexualidade e outros marcadores sociais da diferença. Nesses processos, tem se enfatizando, de maneira prioritária, a maneira como tais marcadores se articulam na produção de dinâmicas sociais no território em que se encontra a UEPB. Dessa maneira, pode se afirmar que seu delineamento decorre das interações entre atuação acadêmica das pessoas que o integram com os feminismos locais e grupos socialmente identificados a partir das diferenças de raça, gênero, sexualidade, dentre outros marcadores.

Sob perspectivas diversas, as abordagens acerca da atuação feminista que se desenvolveram a partir da década de 1970 têm promovido uma homogeneização do feminismo brasileiro a partir do eixo Sudeste/Sul, desconsiderando especificidades e dinâmicas locais de enunciação. Nesse quadro, a separação entre as esferas acadêmicas e do movimento é tomada como dado representativo do feminismo brasileiro. No entanto, tomar a organização feminista como realidade homogênea desconsiderado seus diferentes contextos de enunciação, implica em estabelecer cumplicidades com narrativas enredadas nas dinâmicas de colonialidade presentes nas clivagens regionais e intra-regionais que compõem o Brasil.

Em localidades marcadas pela dispersão de grupos articulados por agendas constituídas em torno de marcadores de gênero, sexualidade e raça persiste uma firme aliança entre grupos tidos como “acadêmicos” e ativismos articulados em torno de agendas feministas, anti-racistas e das dissidências de gênero e sexualidade, formando coalizões para salvaguardar e fortalecer agendas construídas localmente. Cadastrados como diretórios de pesquisa junto ao CNPq, tais grupos costumam negociar com coletivos locais temas articuladores de atividades de ensino, pesquisa e extensão. É prática comum suas/seus representantes integrarem, via grupo, ou como “autônomas”, redes feministas que se articulam regional ou nacionalmente.

O NINETS adquire seu delineamento nesse contexto. Os grupos articulados no âmbito da UEPB possuem uma agenda acadêmica, com componentes curriculares assegurados na graduação e pós-graduação, atuando também de forma sistemática em redes locais. A relação com os grupos políticos respalda a presença da universidade e ajuda a negociar a inclusão de componentes curriculares em cursos de graduação e pós-graduação, além de criação e manutenção de linhas de pesquisa articulando diferentes áreas temáticas. Estas, por sua vez, associam-se a ações de extensão efetivadas mediante projetos de intervenção em temas articuladores de investigações e as atividades são sistematizadas na produção de artigos que problematizam a experiência acumulada.

Por tecnologia entendemos as práticas “racionalizadoras” das relações de poder, colocadas em funcionamento por meio de procedimentos técnicos. Através de uma regularidade de estratégias e táticas agem sobre os indivíduos constituindo os processos de subjetivação. Refere-se, portanto, tanto aos processos por meio dos quais se efetivam, como aos “produtos” e artefatos associados a tais processos.

A apropriação enviesada por abordagens localizadas em sistemas de saber colonialistas promove o empobrecimento das potencialidades presentes em tecnologias (hoje chamadas de sociais) inspiradas em ordens epistemológicas que resistiram à homogeneização promovida pela colonialidade. Interessa-nos conhecer as possibilidades táticas das invenções articuladas “alhures” aos processos de racialização, sexualização que estão na base da geopolítica colonialista.

Propomos a reflexão sobre a localização dos aparatos tecnológicos nas estratégias delineadas por sistemas de controle e dominação, como, por exemplo, a localização dos corpos subalternizados/as pela história em relação à tecnologia, as imbricações entre o domínio tecnológico e construção do sujeito nas epistemologias colonialistas.

Entendemos que essas reflexões precedem a elaboração de estratégias de intervenção, ao passo que propomos ao investimento no desenvolvimento de tecnologias sociais organizada mediante tais princípios, como vimos experimentando até o momento.

O NINETS existe porque seguimos interpelada/os por Ninete, travesti negra, “deficiente”, 24 anos, assassinada em 15 de abril de 2011 na cidade de Campina Grande, sob o registro “atento” das câmeras de trânsito da cidade. Nossa existência é acalentada pelo desejo de contribuir para que cenas como essas deixem de existir.